Investigação

O Preço Invisível da Desconfiança: Quanto Custa Viver em um País Onde Ninguém Confia em Ninguém?

Dos cartórios aos juros bancários, a falta de confiança entre os brasileiros gera um "imposto invisível" que afeta o crescimento econômico e pune, principalmente, os mais pobres.

Imagine a seguinte cena: você acabou de vender um carro, combinou o preço, recebeu o dinheiro, entregou a chave e selou o negócio com um aperto de mão. Para que essa venda valha de verdade no Brasil, a sua palavra e a sua assinatura não bastam. É preciso ir até um cartório, pegar uma senha, enfrentar uma fila e pagar uma taxa para que um funcionário ateste que a sua assinatura é, de fato, sua.

Apenas em 2022, os cartórios brasileiros arrecadaram um recorde de R$ 25,9 bilhões com serviços desse tipo. Isso equivale a mais de R$ 71 milhões arrecadados todos os dias, superando o orçamento anual de muitos ministérios. Todo esse setor econômico existe para vender algo que os brasileiros não têm uns nos outros: a confiança.

O Raio da Confiança e o “Familismo Amoral”

Dizer que o Brasil é uma sociedade de baixa confiança não significa que o brasileiro desconfie de todos. Dentro de casa e entre amigos, a confiança é absoluta. O que nos falta é a confiança no estranho, no desconhecido, na empresa ou na pessoa do outro lado do balcão.

Pesquisadores chamam isso de “raio de confiança”. Enquanto países como Dinamarca e Noruega possuem um raio largo, onde mais de 60% da população afirma que a maioria das pessoas é confiável, no Brasil esse índice não chega a 10%. Estamos no fundo do ranking mundial, perdendo até para vizinhos como Argentina (25%), Colômbia (21%) e México (29%).

O pesquisador americano Edward Banfield cunhou o termo “familismo amoral” para descrever lugares onde cada um cuida exclusivamente de sua própria família, presumindo que os outros farão o mesmo. Em cenários assim, confiar em um estranho deixa de ser uma virtude e passa a ser encarado como um risco.

O Preço Econômico de Não Confiar

A desconfiança generalizada exige garantias, e manter essas garantias custa muito caro. Quando o caminho legal para cobrar o descumprimento de um acordo é lento e incerto, toda a sociedade aprende a se proteger preventivamente, engessando a economia. Esse custo é visível em várias frentes:

  • Judiciário entupido e caro: No final de 2023, o judiciário brasileiro acumulava 83,8 milhões de processos pendentes. Desse total, 53% (cerca de 44 milhões) eram processos de execução, ou seja, cobranças de dívidas que não andam. Manter essa estrutura consome 1,2% do PIB nacional, o que torna a justiça brasileira uma das mais caras do mundo.
  • Juros abusivos (Spread Bancário): O Brasil tem um dos juros mais altos do planeta. Ao analisar o “spread bancário”, nota-se que mais de um terço (35,7%) da taxa é puramente formado pela inadimplência projetada pelos bancos. Com 83 milhões de brasileiros negativados em 2026, quem paga as contas em dia carrega embutido no preço o custo do calote alheio.
  • Burocracia sufocante: Empreendedores enfrentam um pedágio sem fim para operar. Paga-se por certificados digitais, taxas de antecipação e validações repetitivas a cada novo CNPJ ou máquina de cartão aberta. Por lei, empresas maiores são obrigadas a auditar mensalmente os pagamentos trabalhistas das suas terceirizadas, retendo pagamentos sob a premissa da desconfiança.
  • Segurança Privada: O Brasil possui cerca de 530 mil vigilantes privados contratados, uma estrutura montada por condomínios e lojas para substituir uma proteção estatal que não inspira total confiança. Esse exército particular já equivale a quase três quartos de todo o efetivo de segurança pública do país, que soma cerca de 796 mil agentes.
  • Saúde Suplementar: Nos hospitais, a desconfiança gerou a chamada “glosa”. De cada R$ 100 faturados por grandes hospitais privados em 2024, quase R$ 16 foram inicialmente travados pelas operadoras de planos de saúde, que desconfiam de contas infladas. O resultado são batalhões de auditores brigando entre si, dinheiro travado e reajustes abusivos repassados aos clientes.

Até o Estado Desistiu de Cobrar

Se o setor privado gasta bilhões se blindando, o próprio Estado brasileiro provou ser vítima da desconfiança. Mesmo com polícias, poder de penhora e ferramentas judiciais, as execuções fiscais — dívidas que o poder público tenta cobrar — acumularam-se por décadas sem sucesso.

Recentemente, o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) baixou a resolução 547, extinguindo as execuções fiscais de baixo valor. O motivo é puramente financeiro: mover um processo de cobrança custa, no mínimo, R$ 9.277, para recuperar menos de 2% desse montante. Como mais da metade dessas dívidas era inferior a R$ 10.000, a cobrança se tornou mais cara do que o próprio valor a receber. O sistema, incapaz, simplesmente desistiu, extinguindo milhões de processos do mapa.

Por Que o Brasil é Assim?

Pesquisadores apontam três fatores históricos e estruturais que tornam a desconfiança brasileira tão resistente:

  1. Desigualdade Extrema: Confiar exige presumir que o outro vive em um mundo parecido com o seu. Em uma sociedade profundamente desigual, essa presunção desaparece, matando a sensação de pertencimento ao mesmo plano.
  2. Instituições Extrativistas: Desde o período colonial, o Estado foi desenhado não para proteger, mas para extrair riqueza da população em benefício de quem manda. O cidadão aprendeu que as instituições existem para cobrar quem não tem poder de escapar.
  3. Cultura Patrimonialista: Autores como Sérgio Buarque de Holanda (“homem cordial”) e Raymundo Faoro (“patrimonialismo”) descreveram nossa tendência de ignorar a regra impessoal e valorizar as relações baseadas no afeto e no favor pessoal, confundindo o que é público com o que é privado.

A Fatura Mais Alta Fica com os Mais Pobres

A desconfiança não cobra o mesmo preço de todos. Quem tem dinheiro compra substitutos para a confiança: paga seguros, contrata grandes bancas de advogados e paga despachantes. Quem não tem patrimônio, arca com a multa.

É o idoso morador do interior que precisa perder um dia inteiro de viagem para fazer a “prova de vida” presencial, provando ao Estado que ainda existe. É o empreendedor iniciante que não consegue uma grande encomenda porque os fornecedores exigem pagamento adiantado e ele não possui caixa. A burocracia criada para afastar fraudadores acaba afugentando os cidadãos honestos que não possuem condições financeiras de atravessar seus obstáculos.

Existe Solução?

Campanhas publicitárias pedindo mais confiança são ineficazes. Estudos globais mostram que a confiança de uma sociedade só é construída através da experiência repetida de cidadãos interagindo com instituições imparciais e justas. Quando o guichê do serviço público trata o doutor e o pedreiro com as mesmas regras, o cidadão testa diariamente que vale a pena confiar.

Até lá, a maior fatura que o Brasil paga pela desconfiança continuará sendo silenciosa: as empresas que nunca foram abertas, os contratos que deixaram de ser assinados, as inovações que nunca saíram do papel e a exaustão mental de viver em constante estado de alerta. Não é sobre o dinheiro que gastamos hoje, mas sobre o país próspero que deixamos de ser.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Botão Voltar ao topo